Saturday, September 25, 2004

Fim de Partida


Samuel Beckett

Quatro personagens em cena: Hamm, Clov, Nagg e Nell. Do lado de fora, o nada, o mundo que já não existe. Do lado de dentro, a repetição do ontem, da hora zero, da memória angustiante que inibe qualquer vontade de mudança. Pour quoi changé? Não há nada a fazer, só esperar o fim do jogo.

Por meio de ações encadeadas, Beckett questiona o sentido da vida, do homem, do sonho. O fio condutor se dá na relação entre “o abandono e a miséria humana” versus “a necessidade de convivência e troca”. Hamm, cego e preso a uma cadeira de rodas. Nagg e Nell, mutilados, vivem em dois latões. Clov, aquele que serve a todos e que “dá as deixas”. Essa situação teria tudo para ser dramática, mas não é. Beckett transita pelo cômico, pelo épico, pelo trágico, pelo dramático e não se apega a nenhum dos gêneros. Foge da forja.

Como diz Nell, “nada é mais engraçado do que a infelicidade”. É o funk "Da lata"! Na peça, o autor trata da falência do discurso, de um tempo em que já não vale a pena dizer. Pensamentos. A ilusão da fragmentação ocorre, mas não é fato. A solidão das personagens é capaz de dar continuidade a qualquer quebra de ritmo, num riso que vaza no trágico que encadeia no heróico e morre sem drama.

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